Dona de um talento incontestável, Eliane Lima é mais um jovem talento promissor da nossa cultura, com uma pintura que oscila entre uma postura combativa em favor dos direitos da mulher a uma sutilidade de quem vê arte em tudo.

Sem mais delongas, comecemos com o perfil:

Nome: Eliane Lima
Idade: 19 anos.
Lazer: Ama equitação, livros e documentários.
Frases preferidas: “Mais vale perder um minuto da vida, do que a vida num minuto” e a frase de Chimamanda AdichieO problema com a questão de género é que ela dita como nós devíamos ser, ao invés de reconhecer como nós somos. Imagine como seríamos mais felizes, o quão livres seríamos para sermos nós mesmos, se não tivéssemos o peso das expectativas de género”.

Influências: Chimamanda Ngozi Adichie inspirou-a muito artisticamente com os seus trabalhos literários. As artistas plásticas Amy Judd, Jenny Saville e Frida Kahlo foram e continuam a ser as suas maiores referências artísticas. Também aprecia o trabalho de Jose Zan Andrade.


P&A: As artes manifestam-se em nós e, simultaneamente, dão-nos a oportunidade de nos manifestarmos no mundo. Como começa a manifestar-se o bichinho da arte em sua vida e quais são as primeiras referências?

EL – A arte existe em cada coisinha do mundo. Numa foto, numa tela, numa dança e mesmo num olhar. Eu tento ver arte em todos lugares. Quando falo de arte não é somente uma arte física. Às vezes, a arte está no ambiente de um local, em como aquele lugar faz-te sentir. Quando é algo visível, uma pequena coisa pode significar muito para mim. A minha primeira referência fui eu mesma, e continuo a ser. Eu adoro o real e sei que as pessoas são as mais belas formas de arte que existem. Eu tenho a mim mesma como a principal referência. Porque não usar o que sou no meu próprio trabalho? Ninguém me conhece melhor do que eu mesma. E como diria Frida Kahlo: “eu pinto auto-retratos porque eu sou a pessoa que mais conheço”.

P&A: Em nossas pesquisas, colhemos a informação de que teve formação artística, como descreve esse período?

EL – Eu venho tendo formação artística desde que entrei na escola, mas, no princípio, não era nada sério. Como toda criança, eu gostava de pintar e desenhar, mas não sabia do meu potencial até atingir os 13 anos. A partir daí, comecei a levar a arte bem mais a sério, tornou-se uma grande parte da minha vida. No médio, fo
rmei-me em literatura, história e artes plásticas, tendo passado no exame internacional de artes (A level) e recebido o diploma de Cambridge. Depois eu entrei para uma academia de arquitectura e design, onde eu fiz um ano de arquitectura, grafismo e artes plásticas. Sou muito grata pela formação que recebi, porque me deu a oportunidade de descobrir coisas que eu nunca imaginei ser capaz de fazer. Aprendi que, com a arte, vários mundos podem ser criados e que não há limites para a nossa imaginação.


 “Hoje a arte é parte de mim. Não apenas as artes plásticas, mas a música, literatura, e o cinema, entre outros. Eu vou regularmente a exposições, adoro ler, sou fã de todo tipo e formas de arte.”


P&A: A sua arte assume uma postura de afirmação dos teus ideais. Essa descrição corresponde com a maneira que vê o seu trabalho?

EL – Sim, de certa forma a minha arte reflecte quem eu sou. Muitas vezes, as minhas criações reflectem o meu estado mental e os meus pensamentos.

P&A: Como olha para o mercado artístico nacional?

EL – O mercado artístico nacional está a crescer. As pessoas estão mais abertas em relação à arte. Ainda falta muito para chegarmos ao lugar ideal, mas, devagarinho, estão a abrir as suas mentes para acolher este movimento. É difícil ser reconhecido, mas os talentos estão a batalhar para afirmar o lugar da arte na nossa sociedade.

P&A: Quais são os seus projectos futuros?

EL – Para o futuro, eu estou a planejar a minha primeira exposição solo em Luanda. Prevista para Julho de 2017, se tudo der certo. Também estou a trabalhar num novo projecto fotográfico, que é diferente dos trabalhos que faço neste momento, mas sou apaixonada por fotografia e sempre quis fazer um projecto fotográfico.

P&A: O que falta, a seu ver, para que Angola exporte mais talentos para o mundo?

EL – Eu creio que falta apoio para os talentos angolanos. Não temos associações suficientes que apoiem os artistas da forma que eles merecem. Creio que se instalassem associações com patrocínios, não só seria possível exportar talentos angolanos para o mundo, mas teríamos um aumento de talentos na nossa sociedade. Nós temos muita gente com vocação no país, só falta reconhecimento e apoio para estes talentos se sentirem no lugar que lhes pertence.



P&A: Quem é a Eliane Lima fora do atelier?

EL – Bom, fora do atelier a Eliane Lima é uma estudante de arquitectura e design, apaixonada por animais e que ama explorar o mundo. Se eu pudesse, passaria a vida a viajar. Nós aprendemos tantas coisas quando conhecemos gentes diferentes, lugares diferentes, e isso só enriquece a nossa alma e sabedoria. Eu faço parte de duas associações: Salvando Vidas e Omunga, associações humanitárias e educativas em Angola.

P&A: Numa cor, como definiria o teu trabalho?

EL – Se eu tivesse que definir o meu trabalho numa cor, escolheria o azul. É a cor do céu e do mar, associado à estabilidade, confidência, confiança e verdade. Uma cor que me traz paz e calma, e eu sinto o mesmo do meu trabalho.

P&A: Quais são as informações adicionais que gostaria de partilhar com o seu público?

EL – Eu gostaria de dizer que não devemos ter medo de mostrar o nosso trabalho, a nossa arte. Se amas o que fazes, não desista por pequenos motivos. Nem sempre as coisas estarão bem, mas há sempre uma chuva antes de um grande arco-íris.

Isis Hembe de Oliveira

Uma pessoa em construção e de poucas identificações. Nascido em Angola, na província do Cuito, contudo se vê como um cidadão do mundo. Introduzido ao mundo das artes, formalmente, pelo hip hop em funções de MC; hoje tem um horizonte de atuação no campo artístico que sai desde interprete de violão clássico/fingerstyle à escrita.