Mês de Agosto do ano da crise, “dois mil e escassez”, vai entrar na história de alguns felizes momentâneos, como eu, viventes nessa terra dos infelizes. O que poderia causar-me felicidade no meio de tanta injustiça gritante? O que significaria abraçar a alegria, nessa terra de tanta morte embrulhada em forro de hipocrisia? O que levaria às pessoas à satisfação nessa sociedade em que o tiro disparado vem da consciência de quem tem o dever de manter a ordem pública e a segurança nacional? Como encontrar a felicidade em terras onde a “paz” mendiga paz entre os homens? É como procurar uma agulha num palheiro! Mas eu encontrei-a! Afinal milagres acontecem, pois apenas um milagre poderia justificar um acontecimento de utopia gigantesca. E para minha felicidade, não a encontrei sozinho. Fazendo surgir uma pergunta que até aqui não se quer calar: Como foi possível?

Para mim não foi difícil, bastou-me mergulhar em certas águas de marés ainda baixas que é a arte, sob as vestes da cultura. E para provar que as minhas palavras não são apenas floreados, este mergulho deu-se num La(r)go que se diz ser das Heroínas, tais Heroínas que lutaram para o renascimento da cultura angolana. Agora foi a vez de elas, com os seus olhos mortos, mas que contribuíram para que os meus estivessem numa sexta-feira de Agosto abertos, a presenciar um pequeno – enormíssimo pela ousadia e atitude – acto heroico.

O Colectivo de dança Experimento 16, do Projecto (E)Motion foi o responsável por uma façanha desabitual –numa cidade produtora de desmedido estresse –, a apresentação “Expressão Livre”. “Já que se nos expressarmos por palavras, podemos ser logo cotados de Revus, vamos nos expressar com o corpo, livremente!” Parece terem pensado assim os jovens deste Colectivo, para levar avante tal ousadia.

Para concretizar a certeza de que seria realmente um acto de coragem e de “heróis”, à hora marcada, 14h00, a adesão dos prováveis cúmplices do acto ao mergulho no La(r)go era pequena. No entanto, os jovens artistas foram tão criativos que, antes da dança, criaram uma forma de envolver todos os presentes na festa cultural, pedindo que cada um criasse uma frase, escrita em tiras de cartolina, que gritasse uma necessidade não apenas para dança, como era esperado, mas para e pela cultura em si. Fiquei boquiaberto por tal pensamento brilhante!

Estendidas em cordas, as tiras foram expostas para molhar a consciência dos ignorantes e dormentes artísticos, da necessidade de se olhar para cultura com os mesmos olhos com que se olha a educação e a saúde, pois a cultura e a arte são actos necessários para a educação e para a sanidade integral do homem.

Antes do início da apresentação, viu-se chegar duas motos carregando a vergonha, em muitos casos, incorporada pela farda azul. Mesmo sem ouvir o que eles quereriam saber, embora pudesse imaginar, passava pela minha cabeça várias razões para aquela aparição. Soube depois, pela criadora e directora do colectivo, Aneth Silva, que as duas motos da Polícia Nacional tinham sido orientadas para rondar o Largo das Heroínas. Teria o Governo de Luanda interpretado a carta informativa que  colectivo tinha enviado, cinco dias antes, como se se tratasse de uma manifestação contra o Sistema? Era sim uma manifestação, cultural, que gritava ao sistema pela criação de políticas para a fomentação da cultura e da arte nacional, tal como escrito pelo público nas várias mensagens nas cartolinas.

Pouco depois das 15h00, após ter-se esclarecido, com os agentes, de que tipo de manifestação se tratava, deu-se início a uma das poucas razões para ser feliz, num Agosto marcado por derrame de sangue inocente, nesse ano da fome: “expressão livre” em espaço livre que se provou uma vez mais ser público. Nesse instante, o número de presentes já tinha aumentado para, aproximadamente, quatro dezenas, ou mais do que isto, além das pessoas que passavam e se deixavam perder, por alguns minutos, pela magia espalhada por aqueles corpos em movimento livre. Os espectadores foram convidados a participar e, em alguns momentos, alguns destes, os mais destemidos, levaram os restantes à euforia.

Do Kuduro ao House, do Hip Hop ao Contemporâneo, os jovens do Projecto (E)Motion proporcionaram uma descontracção carregada de emoções, fazendo, da tal sexta-feira de Agosto, um dia bem passado para muitos, sem a necessidade de levarem as suas mãos ao bolso.

Mais de uma hora foi tempo que levou a apresentação que teve como surpresa final a performance de uma menina de cerca de sete anos, demonstrando mais habilidade do que muitos adultos.

E para fechar o experimento, houve uma demonstração de Capoeira e o público, mais uma vez, sentiu-se convidado a participar.

Encerrada a sessão, meu corpo abandonava o local, cheio de energia, e minha alma afluía de emoção, pelo contágio emocional que recebera.

Mário Henriques

De Luanda, professor do ensino primário e de Língua Portuguesa do II Ciclo, estudante finalista do curso de Ciências da Educação, especialidade em Língua Portuguesa pelo Isced de Luanda. Aprendiz na arte da escrita, começado cedo de uma forma inconsciente por via da febre do RAP nos anos 90. Há menos de dez anos tomou consciência desta veia artística, dando-lhe mais atenção.

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