Foto: Wilson Photografer

Domingo, 18 de Dezembro, o restaurante Art´z foi testemunha de mais um acto, desta vez, de bravura e ousadia: o lançamento do livro infantil “O Nosso Natal” da escritora Rosa Soares e da artista plástica Inês Melina, a ilustradora do livro. Lançamentos de livros de escritores jovens não são de todo comuns, quanto mais dirigido para um público-alvo bem específico, as crianças.

Como entender tal bravura e ousadia? Quantos escritores infantis podemos dizer que temos ou quantos escritores se preocupam ou já mostraram preocupação em relação às crianças? Acho que se conhece as respostas para estas perguntas. Mas Rosa e Inês, em poucos anos como fazedoras de arte, fizeram o que escritores da anterior geração, em décadas de arte, nunca experimentaram. Não nos referimos aos que se intitularam ou foram intitulados escritores infantis, cujo número é uma gota no oceano, mas aos demais. Ou será que apenas os escritores infantis é que devem se preocupar em produzir obras para crianças? De onde sairá leitores para literatura “adulta”, se não existir uma preocupação com as crianças em relação à arte? Por isso, estas artistas tiveram uma certa ousadia a darem valor a uma camada da população que recebe todos os desprezos, até em relação àquilo que lhe é por direito: educação.

Foto: Wilson Photografer

Outra razão pela qual achamos o lançamento do livro um acto bravo é o investimento independente que o livro sofreu, ao contrário dos investimentos para o lançamento dos dois primeiros livros de novela da Rosa Soares e da exposição da Inês, que foram por investimentos familiares. Aí esta a bravura: tirar do próprio bolso para investir nas crianças. Foi um investimento arriscado, porque as crianças não compram, e os pais, como se ouve dizer, não lêem, portanto, quem iria comprar “ O Nosso Natal”?

Mas tais questões só seriam preocupações para as jovens artistas, se elas fossem movidas pelo oportunismo grosseiro, aquele que vê os ganhos, primeiramente, depois a qualidade, a estética da obra a apresentar. Segundo a autora de “Met(amor)fose”, o que lhe move é a paixão pelo que acredita, que é tornar a sua existência e a dos outros melhor, e assim como o livro tornará a vida das crianças melhor, também.
Concordando com a parceira, a também designer, Inês Melina, disse que a paixão faz lutar, faz ir atrás dos sonhos. “Podes ter talento, mas se não gostares e não acreditares em ti, no teu talento, tu não consegues fazer nada. E nós acreditamos naquilo que nós somos e naquilo que fazemos”, continuou.

Ainda sobre as razões de este livro ser de grande importância, desta vez, não pela preocupação com as crianças, não necessariamente, é a valorização do artista angolano. Como disse a escritora Rosa Soares, poderia convidar uma ilustradora brasileira, para com ela fazer parceria, ou a Inês, uma escritora Portuguesa, por exemplo, com o mesmo objectivo. Mas, “como forma de promover colaborações entre artistas angolanos”, argumentou a Rosa, fizeram elas a parceria. E é importante referirmos isso, porque este procedimento, de desvalorização do que é nosso pela valorização do que é estrangeiro, é recorrente e contribui para a nossa pobreza não apenas financeira, mas de valores culturais e artísticos.

Esta parceria, artisticamente falando, traz um valor acrescido em termos de incentivo à leitura. Ou seja, se a história em si não for suficiente para as crianças se interessarem pela leitura, as ilustrações e o gosto pela pintura vão ajudar ou servirão como “obrigação” para elas lerem. Como disse a Inês, “as crianças começam a riscar em tudo quanto é canto… mas com este livro, elas podem fazer o que quiserem, porque é mesmo para elas explorarem a arte que existe dentro delas”. Ainda acrescentou: “não pensamos apenas nas crianças que sabem ler, mas também nas que ainda não lêem, para se criar um momento entre pais e filhos, porque já não existe isso, de o pai contar uma história para criança dormir. Então, queremos passar isso aos pais. Portanto, acho que vai ser um momento muito bonito ver os pais a contarem esta história para as crianças, e, deste modo, não vão esquecer o livro, nem a história nem as ilustrações”.

A responsável pela parte literária da obra, fez também referência à importância de o formato do livro ser pequeno o suficiente para, até, ser levado ao bolso do pai, em particular, porque este pode ler para o filho onde quer que seja, ajudando a criança a criar uma relação de afecto com o livro, a olhar para o livro como um objecto precioso, desde que o pai leia para a criança, a fim de, também, criar uma ligação que quase não existe entre pais e filhos. Ainda acrescentou afirmando que o problema não é que a juventude não leia, é que não foi estimulada a ler, e que, com este livro, estarão a dar o seu contributo para estimular estas crianças para que no futuro sejam grandes leitores, escritores e desenhadores.

Foto: Wilson Photografer

Portanto, a obra está à disposição dos pais, e não só, para presentear alguma criança e começar a estimular nesta aquilo que tanto os adultos hoje procuram e lamentam por não terem.

Porém toda esta ousadia perderá valor, se Rosa Soares e Inês Melina ficarem por este livro infantil. E todas as críticas levantadas contra a geração anterior de escritores, servirá para as, ainda, ousadas Rosa e Inês. E mais do que isso, achá-las-ei oportunistas, pois aproveitaram-se do mês de festas, embora em época de crise, para apresentação e lançamento da obra e ganharem os seus dividendos. Aí concordarei mais ainda com a Rosa Soares quando disse que nas dificuldades, encontra-se oportunidades. Portanto, dou-lhes a batata quente nas mãos e sugiro-lhes que continuem a ser ousadas.

Mário Henriques

De Luanda, professor do ensino primário e de Língua Portuguesa do II Ciclo, estudante finalista do curso de Ciências da Educação, especialidade em Língua Portuguesa pelo Isced de Luanda. Aprendiz na arte da escrita, começado cedo de uma forma inconsciente por via da febre do RAP nos anos 90. Há menos de dez anos tomou consciência desta veia artística, dando-lhe mais atenção.

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