Era uma manhã qualquer de um dia de Fevereiro, algures na década de 2000. Dei por mim estafado na paragem dos congoleses, inerte, como se alguma coisa tivesse me hipnotizado. Depois de ter aguentado as três horas habituais de engarrafamento, no percurso Vila de Viana – Congoleses, com a linha encurtada entre o mercado da Estalagem à paragem do Grafanil, do Grafanil à BCA ou à FTU ou, como nos dias sem chuva, até à estátua do Motorista, ali estava eu, completamente sorumbático com sabe-se lá o quê. Talvez fosse a raiva de ter aguentado tanto tempo arrumado no candongueiro, com cinco pessoas num banco de três, e saber que ainda tinha que enveredar numa outra luta, feito um lutador de luta livre, para poder apanhar outro candongueiro e chegar no salo a horas.

Os solavancos que levava já eram costumeiros, e, mesmo que não fossem, não tinha como desistir, pois estava em questão a busca pelo sustento. Não importava a que horas chegava a casa no dia anterior, pulava da cama, como sempre, às 04h00 da manhã e deixava a casa às 04h30min rumo ao Maculusso. Nessa altura, sair de Viana para se deslocar, todos os dias, ao local de trabalho, com a avenida Deolinda Rodrigues em obras que pareciam nunca mais ter fim, o percurso de cerca de quinze quilómetros era, talvez, a pior parte do meu dia.

Ali, imóvel, via os candongueiros que passavam bem rentinho aos meus pés e os cobradores que gritavam bem nos meus ouvidos. Até o meu amigo aleijado, Martelo, cobrador da linha “Colégio – Maianga” chamou por mim, mas nada, não lhe ouvi! Estava completamente ausente de mim. O mar de gente nos arredores da paragem dos congoleses, indo e vindo, sabe Deus de onde, a procura de saber sei lá o quê, ao meu olhar era uma imagem estática que lembrava a cena de abertura da novela brasileira “Senhora do Destino”.

«Mande notícias do mundo de lá, diz quem fica!»

Não tardou, percebi que o olhar estático, direccionado ao outro lado da estrada, se prendia num lenço laranja que desfilava pelos ares desenhando figuras enigmáticas feito uma bailarina do Kilandukilu, contorcendo-se na dança contemporânea ao som de um poderoso e barulhento batuque ou, quiçá, numa suavidade profunda ao som do Saxofone de Nanuto. E vinha em minha direcção. Com o mundo inteiro estático e cinzento, apenas o lenço tinha cor e movia-se, oscilando os seus extremos estendidos entre Norte e Sul ou, mais acertadamente, entre Este e Oeste, como se estivesse a mostrar-me de onde vinha, Viana, e para onde tinha que ir, Maculusso.

Petrificado, dei pelo lenço a pousar no meu rosto ao mesmo tempo que os pequenos chuviscos que entenderam acariciar-me a pele anunciavam o fervoroso romance entre o asfalto esburacado com a água da chuva, dando mais garra ao engarrafamento feito um atleta que toma suplementos ilícitos. O cheiro que se soltava do lenço invadiu-me de rompante as entranhas. Uma reacção instantânea manifestou-se em meu cérebro e cascateou ao resto do corpo enquanto o meu olhar cristalizado procurava identificar, dentre as milhares de pessoas da cena de abertura da “Senhora do Destino”, quem manifestaria o movimento que denunciasse a procura do lenço. Ninguém!

Recolhi o lenço do rosto e embrulhei-o até caber a maioria na mão esquerda, onde  esteve a descansar o meu telemóvel pouco antes de tê-lo levado ao bolso. Estava momentaneamente num universo alternativo, em que reinava a paz e tranquilidade, completamente esquecido dos solavancos e empurrões dos candongueiros, bem como dos maltratos diários do patrão que pensa que o meu emprego é um favor que ele me faz. Ali estava eu, com o lenço na mão, me enamorando com o cheiro da sua dona, uma ilustre desconhecida. Mas, de repente, como um alarme soando no interior da minha cachimónia, foi deturpado o meu momento de utopia. Quase explodi de raiva ao perceber que tinham-me roubado o telefone.

Fiquei completamente enraivecido, pois, enquanto viajava na sonoridade do silêncio que estampou o meu ouvido e na maciez do lenço laranja, cujo cheiro transportou-me para lá de um oásis de descontracção e tranquilidade, não senti os dedos que trespassaram o tecido da calça, levando-me o telemóvel, fazendo-me experimentar, pela primeira vez, a sensação de quão importante é afinal esse simples dispositivo e como dói perdê-lo. Maldito Lenço Laranja!

Luefe Khayari in “A Moça do Lenço Laranja”
Foto: Alexandra Goncalves

Luefe Khayari
Coordenador Editorial at |

Pai, esposo, engenheiro, escritor ou aspirante a isso. Observador por natureza e reflexivo por opção. Vê na simplicidade das coisas um caminho a seguir onde encontra pequenas gotas de inspiração. Acredita na persistência desde tenra idade, não em vão o seu lema de vida é:
“Uma eterna prova de persistência é o nascer do sol”.

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