O que é o corpo? O que move o corpo? O que o corpo pode mover? Que corpo pode mover? – questões frequentes que recebem respostas momentâneas a cada performance apresentada –, profere Eleonora Fabião no artigo Performance e Teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea.

A “Performance Artística” surgiu na década de 1960, como uma modalidade de manifestação artística interdisciplinar que pode combinar teatro, música, dança, poesia ou vídeo, mas que não se enquadra em nenhum desses formatos separadamente. Ela é tudo aquilo que as outras artes não são, ou seja, tudo que é descartado ou não cabe nas artes cénicas, visuais, etc. é levado para a performance, fazendo com que seja parte de uma nova cadeia de linguagens que vem se desenvolvendo.

Com ou sem público, a “Performance Artística” foge a qualquer formatação de espaços físicos – podendo ser apresentada numa árvore, cubo, casa, num banheiro, na escada e na parede ou em qualquer lugar decidido pelo artista. Os elementos usados na cena podem ser até mesmo um corpo nu, exposto e totalmente livre para ser lido pelo espectador, esperando apenas tornar essencial o que é real, aquilo que faz parte da sua vivência, do ser vivo  e potente que afecta e se deixa afectar, evitando uma forma de exibição que seja ordinária e superficial. Como explica a performer Eleonora Fabião:

A meu ver, a força da performance está em turbinar a relação do cidadão com a polis; do agente histórico com seu contexto; do vivente com o tempo, o espaço, o corpo, o outro, o consigo. Esta é a potência da performance: des-habituar, des-mecanizar, escovar à contra-pêlo. Trata-se de buscar maneiras alternativas de lidar com o estabelecido, de experimentar estados psicofísicos alterados, de criar situações que disseminam dissonâncias diversas: dissonâncias de ordem econômica, emocional, biológica, ideológica, psicológica, espiritual, identitária, sexual, política, estética, social, racial… (FABIÃO, E. 2009).

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Trata-se de promover experiências, focar no lugar da experimentação de acontecimentos, de abrir a percepção para a descodificação de signos. O performer coloca-se no lugar de aceitar a reacção do corpo mesmo sem saber qual vai ser, colocando-o em evidência, investigando, potencializando a mutabilidade do vivo, e gerando-o além dos seus limites por meio dos seus programas performativos.

Quando se investiga o corpo você se indaga sobre os limites desse corpo. Essa é uma questão que tem aparecido desde a segunda metade do século XX no mundo todo, e principalmente no mundo ocidental, por uma razão muito simples: a tradição ocidental sempre o exculpou das discussões – o corpo não interessava, era aquilo que atrapalhava, o corpo era pecaminoso – e toda a atitude contrária a essa ideia colocou em evidencia os limites desse próprio corpo. (Lúcio Agra, 2013).

Para que possa ser reproduzida em outros momentos ou locais, sendo que, na sua maioria, é apresentada para um público restrito ou mesmo ausente, depende de registos – fotografias, vídeos e/ou memoriais descritivos. Mas torna-se essencial pensar na performance com a pretensão do outro, pensando que ela só acontece quando o artista e o público se envolvem com a proposta, dedicando-se plenamente a ela. Pois, apesar de algumas tendências dramatúrgicas gerais da performance terem sido já apresentadas, é um género tão multifacetado e aberto que foge a qualquer definição ou padrão que queira ser definido para a mesma. Assim, dentro de sua reflexão, Fabião (2009) traz-nos palavras que podem ser ou vir a ser uma alternativa à sua definição:

[…] As práticas desses performers expandem a idéia do que seja ação artística e “artisticidade” da ação, bem como a idéia de corpo e “politicidade” do corpo. Fácil seria dizer que se tratam de operações adolescentemente provocativas promovidas por um punhado de sadomasoquistas e/ou idiossincráticos para chocar o “senso-comum” (que aturdido perguntasse “o que é isso?” “para quê isso?” “afinal, o que eles querem dizer com isso?” “isso é arte?”). Porém, não há nada de fácil em lidar com a potência cultural dessas presenças, verdadeiras fantasmagorias assombrando noções clássicas ou tradicionais de arte, comunicação, dramaturgia, corpo e cena. Performers são, antes de tudo, complicadores culturais. Educadores da percepção ativam e evidenciam a latência paradoxal do vivo – o que não pára de nascer e não cessa de morrer, simultânea e integradamente. Ser e não ser, eis a questão; ser e não ser arte; ser e não ser cotidiano; ser e não ser ritual. (p. 237)

 

BIBLIOGRAFIA
FABIÃO, Eleonora. Performance e Teatro: poéticas e politicas da cena contemporânea. 2009. Artigo de pesquisa encontrado em: http:/www.revistas.usp.br/salapreta. Visitada em Junho de 2016.
VIDEOGRAFIA
GOMES, Williane e TRIGUEIRO, Vanessa Paula. PerFoda-se: um documentário sobre a arte da performance arte. RN, 2013
Aneth Silva

Aneth Silva é Bailarina/professora/coreógrafa/pesquisadora de 23 anos, amante de arte, natural de Luanda e licenciada pela faculdade Angel Vianna. Dança há 10 anos. Foi do grupo Fênix. 3ª edição do Bounce. Aulas/espetáculos/saraus do Centro de movimento Deborah Colker. Ministrou diversos workshops e aulas em Angola e Brasil. Produziu, coreografou no espetáculo “Pala’eye, Ngola Yami” em 2015. Bailarina/criadora em 6 Mostras da FAV.

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